Jeferson Antonio Quimelli
Temos hoje por aí multiplicando-se os evangelhos: O
Evangelho segundo Jesus, de José Saramago, o Evangelho segundo o
Espiritismo, de Kardec.
A igreja primitiva mesmo viu aparecerem vários
"evangelhos" e outros escritos. Os pais da igreja primitiva tiveram de
separar dentre esses, os que reconhecidamente tinham inspiração divina.
Os critérios para isso foram: a vida e ensinos do
escritor e a harmonia doutrinária. Se o escritor tinha sido um apóstolo,
por exemplo, era grande a possibilidade de ser o escrito inspirado. A
moralidade, vida doméstica e testemunho do autor também eram
considerados. No outro critério, o livro não deveria ter doutrinas que
entrassem em conflito com outros livros já reconhecidamente canônicos,
tanto do Velho quanto do Novo Testamento.
Este deveria ser também o nosso direcionamento ao chegar às nossas mãos os novos "evangelhos" de hoje.
Paulo mesmo advertiu os crentes de sua época a não
darem ouvidos a outros evangelhos (Gál. 1:6,7), que estivessem em
desarmonia com o evangelho real, apresentado pela história de Jesus e
registrados pelos quatro evangelistas, Mateus, Marcos, Lucas e João.
Cada um deste evangelhos destaca um aspecto diferente da obra de nosso Salvador Jesus.
Os quatro Evangelhos
O livro do Apocalipse nos fornece informações dos enfoques de cada um dos evangelhos.
Em 4:7, estes enfoques estão demonstrados nas
aparências dos quatro querubins postados ao lado do trono de Deus: a de
um leão, a um novilho (ou boi), a um homem e o de uma águia voando.
Na verdade, estes símbolos apontam para os característicos de Jesus Cristo mais destacados em cada um dos evangelhos:
Mateus destaca em seu evangelho o caráter real de Jesus – é o evangelho leão. Leão representa força, realeza;
Marcos dá ênfase ao trabalho de Jesus pelas pessoas –
é o chamado evangelho boi pelos comentaristas. O boi sempre foi um
animal que se destacou pelos serviços prestados ao homem;
Lucas reforça em seu evangelho a humanidade de Jesus –
Jesus, o Filho do Homem. O que mais diferencia o homem diante dos
animais é a inteligência;
João destaca desde o seu início a Jesus como divino,
criador. Característica bem representada pela águia, em sua rapidez,
controle, altivez. "O Espírito de Deus pairava" – como uma águia –
"sobre as águas...".Gên. 1:2.
Não por acaso, estes eram os símbolos das principais
tribos do acampamento do antigo Israel, em torno do santuário: "Judá, ao
leste, usava o símbolo de um leão; Rubén, ao sul, o símbolo de um
homem; Efraim, ao oeste, o símbolo de um boi ou bezerro; e Dã, ao norte,
o símbolo de uma águia.", como aponta Joseph Batistone.
O Apocalipse de João – o 5 º Evangelho
Se temos quatro evangelhos "oficiais" na Bíblia, quanl seria o quinto?
Existem citações e referências à natureza, obra e
vinda de Jesus em todos os livros da Bíblia, mesmo nos do Velho
Testamento. As mais marcantes são Isaías 53, Salmos 22, 69 e 16.
Mas existe um livro da Bíblia cujos assuntos giram
todos em torno de Jesus e a Sua condução dos destinos desta Terra – é o
Apocalipse. Desde sua apresentação, "Revelação de Jesus Cristo", até o
seu final: "eis que venho sem demora".
Esta ênfase em Jesus é mais forte e mais direta nos
capítulos 4 e 5, quando João entra na sala do torno de Deus, (Apoc. 4:1 e
2), vê o mar de vidro (verso 6) e presencia, no capítulo 5, a recepção
que os seres celestiais e o restante do universo não caído em pecado (em
número incontável) fizeram a Jesus após a sua ressurreição.
Jesus é ali representado pelo cordeiro, como tendo sido morto (5:6).
É interessante destacar que o cordeiro que representa
a Jesus em toda a Bíblia era a oferta do pobre (era mais barato que uma
cabra) no serviço levítico do santuário. Jesus é a oferta do pobre,
daquele que sabe que não tem nada para oferecer pela sua salvação. Um
retrato real da raça humana...
Os sete chifres e os sete olhos que tem este cordeiro
mostram que Jesus tem todo o poder e conhecimento no universo, sendo,
portanto, mais que capaz de conhecer o profundo de nosso íntimo e
necessidades e "completar a Sua boa obra em nós" (Filip. 1:6) e nos
proteger de toda a tentação. Chifres significam poder em profecia e
olhos representam conhecimento. Junto ao número 7, que representa a
perfeição, a complitude, temos, portanto, o perfeito e completo poder e
conhecimento para nossa salvação.
Mais algumas referências claramente evangelísticas do Apocalipse:
Em 14:6, João se refere ao "evangelho eterno" – as boas novas da salvação unicamente em Jesus Cristo;
Em 13:8, Jesus é "o Cordeiro de foi morto desde a fundação do mundo";
Em 1:5, Jesus é "Aquele que nos ama e pelo Seu sangue nos libertou dos nossos pecados";
Em 2:10, João fala que o maior desejo de Jesus é nos dar "a coroa da vida" e
em 3:20, o já idoso apóstolo registra a nossa
participação no plano da salvação, no tocante, profundo, sincero,
emocionado convite de Jesus: "Eis que estou á porta e bato; se alguém
ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com
ele, e ele, comigo."
Por estas evidências, Daniel Belvedere, autor do estudo "Revelações do Apocalipse" chama o Apocalipse de "o 5º evangelho".
Existe uma história contada nos evangelhos que por si
só é uma representação prática e clara do amor de Jesus e do Seu poder
de salvação, assim como da nossa profunda dependência dEle.
A força da transformação que o Seu amor produziu na
vida de uma mulher e como ela conseguiu vitória podem ser ainda as
chaves que transformem a nossa vida ainda hoje. Tanto que para mais
ninguém Jesus prometeu que sua história seria eternamente lembrada. É a
história de Maria Madalena – o Evangelho segundo Maria, como chama o
pastor Morris Venden, em suas Meditações Matinais, "Fé que Opera", 1981.
Maria morava com seus irmãos, Lázaro e Marta, no
pequeno vilarejo de Betânia. Seus pais já eram mortos e Lázaro
certamente sustentava a família. Isto certamente tornava os laços de
afeto entre eles mais próximos.
Maria era mais extrovertida, sociável e alegre que
Marta e as pessoas gostavam de ficar perto dela porque ela os fazia
sentirem-se bem e não podemos duvidar que Maria, mesmo sendo humilde,
era presença constante nas reuniões sociais do vilarejo.
Um dia, porém, um dos líderes religiosos de Betânia
começou a olhar de modo diferente para Maria. Não dando importância ao
fato de que era casado e sabendo que um possível relacionamento entre os
dois sempre seria às escondidas e reprovável, Simão aproximou-se dela e
começou a cativá-la. Sendo romântica e um pouco carente, Maria não
percebeu as conseqüências do caminho que estava percorrendo, não escutou
as advertências de seus irmãos e quando se deu conta já estava presa
por suas paixões. Maria era uma pessoa boa, queria aproveitar o que a
vida oferecia de melhor, mas não percebeu que abrindo mão de seus
conceitos morais iria se ver em uma armadilha, com risco iminente de ser
apedrejada por adultério.
Sendo desprezada por Simão, que não queria sofrer as
conseqüências daquilo que ele mesmo planejara e iniciara, começando a
ser mal vista pelos seus vizinhos e por aqueles que antigamente a
valorizavam tanto, longe dos seus antigos amigos que se afastaram, não
lhe restou outra alternativa a não ser a dolorosa separação de sua
família e procurar um outro lugar para viver.
Triste pelo que lhe tinha acontecido, mas não ainda
arrependida, saiu de Betânia e, andando, chegou à cidadezinha de
Magdala. Lá, sendo difícil conseguir uma profissão que lhe desse
sustento, decidiu-se pela difícil "vida fácil", e a sua moral, sua
auto-estima e o que restava de sua vida espiritual acabaram por
praticamente desaparecer. Era desprezada pela sociedade formal de
Magdala e suas únicas companhias eram homens que lhe faziam promessas
interesseiras e que ela sabia que nunca cumpririam e as outras
prostitutas.
Com saudade da paz em que vivia com seus irmãos,
Maria não via saída para sua situação, sentindo-se cada vez mais
indigna, afastada de suas origens, envolvida provavelmente em cultos
pagãos e outras atividades obscuras.
Um dia ouviu falar que estava passando por ali um
pregador que curava doentes e que falava diferente, aceitava a todos e
trazia a todos uma mensagem de esperança e conforto. E Maria, em sua
busca por algo melhor, O foi ver.
Eu O imagino, em certo momento, olhando diretamente
para os olhos de Maria e dizendo: "Vinde a mim, todos os que estais
cansados e sobrecarregados, e Eu os aliviarei" (Mat. 11:28).
Maria deve Ter pensado: será que esse "todos" envolve até a mim?
Se naquela época as mulheres estavam na escala social abaixo até das crianças, imagine-se as prostitutas...
E ela deve ter pensado, traída pela sua baixíssima
auto-estima: "não, isso não é para mim, quando eu chegar perto dEle, Ele
irá me rejeitar e passarei maior vergonha ainda..."
E Jesus continuou: "O que vem a Mim, de modo nenhum o lançarei fora" (João 6:37).
Que momentos agradáveis foram aqueles passados na
companhia de Jesus! Maria se sentiu aceita, completa e lhe parecia
naquele momento que nada mais nublaria a sua felicidade.
Maria que antes vivia desculpando os seus atos, para
os outros e para sua consciência, argumentando que os líderes religiosos
eram também falsos e que ninguém podia acusá-la, pôde ver, na companhia
de Jesus, como sua bondade anterior era insuficiente para dar a ela paz
de espírito e verdadeira harmonia com Deus.
A conversão de Maria foi total, sincera e incondicional.
Gostaria de parar por aqui e dizer que a vida de
Maria foi outra a partir deste momento, que ela nunca mais caiu, que ela
se tornou uma nova pessoa, respeitável e aceita, tanto pelos outros,
como por si mesma.
A aqui a nossa história se identifica com a dela.
A conversão, tanto para nós quanto para Maria, não
nos garante um caminho sem tentações e quedas. O que acontece neste
momento é a nossa mudança de atitude com relação a Deus. Passamos a
vê-Lo como aliado, co-participante em nossas lutas e não como inimigo
acusador que quer tirar a nossa liberdade e o prazer de viver.
Jesus teve que partir de Magdala e com ele o apoio
que Maria tinha para manter suas decisões. Passada aquela intensa
"talvez semana de oração", ela se enfrentou novamente com sua realidade
anterior. Os mesmos problemas, os mesmos olhares no mercado, as mesmas
cobranças. Voltaram as velhas dúvidas, as velhas companhias, as velhas
dívidas, pressões e desprezo explícito ou não de alguns.
Então Maria optou por voltar ao caminho mais "fácil", com certeza usando o álcool para abafar sua consciência.
Sem a presença física de Jesus ela tinha dificuldades
de fazer o que sabia ser correto e nem sentia vontade de fazê-lo, mas
mantinha em seu íntimo a atitude da conversão, do profundo desejo de
estar em harmonia com Deus e a reconhecer a Sua voz e o Seu caminho
entre tantas vozes e caminhos.
Para sua sorte, por misericórdia de Deus, Jesus
passou outra vez pela cidade e Maria, sentindo que ali estava o maior
tesouro que tinha achado em sua vida, expôs, envergonhada, suas
dificuldades e Ele a aceitou e voltou a socorrê-la.
Foi nessa atitude de inesperada aceitação por parte
de Jesus, que ela se sentiu realmente amada, com sentimento de real
valor, que sua aceitação por parte de Deus não dependia do que ela fosse
ou fizesse, era também incondicional e irrestrita.
Nós somos muito reticentes em dar uma Segunda chance
às pessoas, mas a Bíblia diz que Jesus expulsou sete demônios dessa
mulher (Luc. 8:2; Mc. 16:9). E sempre a aceitou, como da primeira vez,
como se ela nunca tivesse pecado.
Essa aceitação incondicional nos é muito difícil de
compreender. Tanto que muitos de nós carregamos o peso de alguma culpa
por boa parte da vida e não perdoamos algumas culpas cometidas por
outros.
Maria finalmente descobriu o que é ser realmente ser
justificado pela fé: é sentir-se aos pés de Jesus mesmo quando não Ele
não estava presente.
Pela oração e pelo conhecimento da vontade e caráter
de Jesus na Bíblia, nós também podemos aprender, como Maria a nos
assentarmos aos pés de Jesus, sermos aceitos, confortados e orientados
por Ele.
Maria aprendeu o segredo da contemplação, pela fé:
"Pela contemplação, sois transformados". Quanto mais contemplamos o
pecado, as tentações, mais pecadores nos tornamos. Mesmo que seja o
pecado que está em nós e estamos combatendo pelas nossos esforços e
virtudes.
Quando combatemos os nossos pecados, os fortalecemos. Podemos ganhar alguns rounds, mas não a luta.
Quando contemplamos a Jesus, o desejo de fazer o
errado se enfraquece e desfaz, nasce em nós a virtude, o amor e a
aceitação, interior e exterior.
Um aspecto importantíssimo da experiência de Maria,
que também é a nossa, é a de que mesmo quando caía em seus erros e
defeitos anteriores, a sua conversão se mantinha e Deus continuava a
aceitá-la, quando ela O buscava.
Acreditamos nisto, não?
Porque então somos tão rígidos em nos classificar
como perdidos a nós e aos outros quando caímos no caminho de crescimento
espiritual?
Certamente este crescimento e amadurecimento
espiritual de Maria a habilitaram a enfrentar além das tentações, as
críticas dos que não a achavam digna de ser aceita pela sociedade.
Pessoas que, apesar de externa e aparentemente justas e boas, estavam
internamente em condição mais desesperadora que ela, por não tinham
conhecido realmente o verdadeiro renascimento espiritual. E nós, em qual
das condições estamos?
A Bíblia ainda fala de outras coisas maravilhosas sobre Maria:
como voltou a viver com sua família e recebeu Jesus em sua casa (Luc. 18:38-42),
teve seu irmão trazido de novo à vida, como símbolo dos que Jesus traria à vida na Sua Segunda Vinda (Jo. 11),
como ela, conduzida pelo Espírito Santo, no banquete
na casa de Simão (o mesmo Simão...), honrou, ungiu e perfumou a Jesus
antes de Sua morte, ação que certamente O confortou nas últimas horas de
Sua vida (Lc. 7:37-50, Jo. 12:1-8) e principalmente ,
a honra de Ter sido a primeira pessoa a ver ao Salvador ressuscitado (Mc. 16:9, Mt. 28:1-9).
É importante frisarmos que todas estas boas coisas
não foram fruto da vontade de Maria que elas acontecessem, mas de Ter
ela aprendido a assentar-se aos pés de Jesus, diariamente, em oração e
em leitura da Bíblia.
Conclusão
Para vermos o Nosso Salvador ressuscitado, precisamos
aprender a nos humilhar, pela fé, a Ele e deixar que Ele complete a Sua
boa obra em nós.
Assim, estaremos construindo mais um evangelho: o
Evangelho segundo eu, o Evangelho segundo você. Este provavelmente será o
único evangelho que muitas pessoas conhecerão antes de conhecerem
pessoalmente a Jesus. Um evangelho em harmonia com a vontade, desejo e
amor de Jesus Cristo.
Como está a escrita deste evangelho? Em que estágio ele está?
Maria sou eu, Maria é você!
Todos carecemos tão desesperadamente da graça de Deus como Maria.
Precisamos desconfiar de nós mesmos e aprender a confiar em Jesus.
Oremos para que Deus nos dê uma visão real de nossa
verdadeira condição, por um lado, e de seu amor e aceitação
incondicional, por outro.
Que sejamos confortados, pela vida de Maria, a não
desanimarmos quando não conseguirmos alcançar o ideal que propusemos, e
que quando isto acontecer e dissermos: "Miserável homem que sou!"
(Romanos 7:24), possamos olhar para Jesus Cristo e Seu amor. Que pela
Seu conhecimento e contemplação, possamos sair destes maus momentos com a
certeza em nosso coração:
"Se Deus é por nós, quem será contra nós?" (Rom.
8:31) e "...somos mais que vencedores, por meio daquEle que nos amou"
(Rom. 8:37), e que nada "...poderá nos separar do amor de Deus, que está
em Cristo Jesus, nosso Senhor".
Amém.
Referências bíblicas:
Marcos 16:9: "Havendo ele [Jesus] ressuscitado de manhã cedo no primeiro dia da semana, apareceu primeiro a Maria Madalena, da qual expulsara sete demônios."
Lucas 8:12: "...andava Jesus de cidade em cidade...os doze iam com Ele ...e também Maria Madalena, da qual saíram sete demônios."
Lucas 10:38-42: v. 42: "Maria, pois, escolheu a boa parte e esta não lhe será tirada."
Lucas 7:37-50 - A "pecadora" unge os pés de Jesus:
v. 39: "Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que
Lhe tocou, porque é pecadora." (Valor do perfume: 300 dias de trabalho – Mat. 20:2.)
Mc. 14:3 a 9. V. 3: "Em Betânia, ...em casa de
Simão, o leproso..." v. 9: "...Onde for pregado em todo o mundo o
evangelho, será também contado o que ela fez..."
João 12:1-8 – Maria unge os pés de Jesus.
João 11 – ressurreição de Lázaro. V.5: "Ora, amava Jesus a Marta, e sua irmã, e a Lázaro."
Mateus 27:56-61. O sepultamento de Jesus. V. 61: "Achavam-se ali, sentadas em frente da sepultura, Maria Madalena e a outra Maria."
Obs: O item "O Evangelho segundo Maria" foi adaptado
livremente do texto do pastor Morris Venden, no livro "Fé que Opera",
Casa, 1981
Fonte: http://sermoes.com.br/sermoes.phphttp://sermoes.com.br/sermoes.php
0 comentários :
Postar um comentário